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História da cerveja: parte 2

Primeiros goles

Afinal, quem veio primeiro: o pão ou a cerveja? Intrigado com a questão, o químico inglês Ian Hornsey, da Sociedade Real de Química, leu, pesquisou e ouviu historiadores, antropólogos, arqueólogos, químicos e cientistas em geral e escreveu A History of Beer and Brewing (“Uma História da Cerveja e da Fermentação”, sem tradução em português), um calhamaço de 700 páginas que investiga a fabricação da bebida desde os seus primórdios. Não há consenso sobre as verdadeiras origens da birra, mas Hornsey constatou a existência de um raciocínio comum entre os estudiosos: a cerveja não foi inventada pelo homem, mas descoberta por acaso.

Tudo teria começado com alguns grãos de cevada expostos à umidade, que fermentaram naturalmente em contato com o ar. Algum homem encontrou esse líquido e, bravamente, resolveu prová-lo. Claro que ele gostou daquela poção primitiva e se encarregou de recriar o processo. Pronto. A humanidade estava apresentada à bebida mais democrática dos últimos 8 mil anos. Esse feliz acidente etílico teria acontecido com um habitante do Oriente Médio, não por acaso o berço da nossa civilização.

As pesquisas de Hornsey mostraram que a tecnologia de fabricação da cerveja teria explodido no antigo Egito, já na era da Pré-dinastia, entre 5500 e 3100 a.C., mas mesmo sobre esse fato há um bocado de controvérsia. As teorias desencontradas têm uma explicação: é muito provável que a loirinha não tenha sido uma invenção isolada. Alguns arqueólogos conseguiram provar que ela surgiu espontaneamente por todo o planeta, inclusive em civilizações ocidentais que viveram isoladas até o século 15.

O que parece ter sido um denominador comum, em todas as sociedades, é a função social do ato de beber. “A falta de realidade causada pela embriaguez deve ter sido profundamente bem-vinda num mundo sombrio e entediante”, escreve Hornsey. Alguma semelhança com suas motivações para um copo de cerveja?

Nos primórdios, a palavra cerveja englobava toda bebida fermentada originada de algum grão, e cada região preparava a bebida de forma distinta. Na África, todas as tribos têm a sua bebida alcoólica tradicional, feita do cereal predominante na região. Na América do Sul, os índios da Amazônia usavam a mandioca, e os incas, o milho – que ainda hoje é usado para preparar a chicha boliviana. Japoneses, chineses e russos fermentavam bebidas de arroz, trigo e centeio, respectivamente. No restante da Ásia, o sorgo (uma planta também conhecida como milho-zaburra) era o preferido.

Até a invenção dos destilados, no século 14, a outra opção de bebida alcoólica era o vinho, considerado um líquido nobre por gregos e romanos. Para esses povos, era quase absurdo o fato de que até os faraós do Egito apreciavam aquela bebida grossa e turva produzida com a mistura de cevada e água. Mas felizmente os preconceitos desses dois povos foram ignorados no Oriente Médio e a tradição se espalhou. Diferentemente do vinho, a cerveja era uma bebida democrática e agradava reis e escravos. Ela era oferecida aos deuses em festas religiosas, receitada como remédio e usada como salário para operários.

Servidos?

Servidos?

Se a bebida não era exatamente a mesma de hoje, o comportamento social dos bebedores não mudou tanto assim. Há 4 600 anos, o ministro egípcio Kagmeni se viu obrigado a bolar a primeira campanha de consumo consciente. “Um copo de água sacia a sede” era um dos slogans que tentavam doutrinar os boêmios adeptos dos copos. Constantemente bêbados, celtas, vikings e saxões eram capazes de brigar com os próprios companheiros depois de vencerem uma guerra.

Adaptado de Superinteressante

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